domingo, 30 de novembro de 2014

Cidade sem memória ou como podemos reverter esse processo

Depois de um período de ausência, aproveitando um vácuo inesperado na agenda e a leitura do excelente artigo do Caderno ZH PrOA "O Brasil é um país belo, mas está se canibalizando", resultado de uma entrevista com Benjamin Moser, eis-me aqui para trazer um assunto que tem sido pauta de muitas discussões que tenho acompanhado.
O artigo citado fala algo que tem sido o ponto comum de muitas mobilizações que vêm ocorrendo aqui em Porto Alegre: "as cidades devem pertencer ao cidadão". Com muita clareza, Moser expõe a tentativa desesperada de apagar a identidade das cidades brasileiras. Ele diz que a a ideia de progresso, empregada para justificar a remodelação urbana, na verdade é a vergonha que se tem do país, de desprezo pelo nacional. Segue expondo sua impressão de que o país está cada dia mais feio e que as pessoas estão muito desmotivadas com tudo o que está acontecendo nas cidades. Entretanto, pondera que não é verdade que nada se pode fazer, citando o movimento Ocupe Estelita, que não classifica como revolucionário, mas um movimento que coloca a questão da cidade para a população.

Não precisamos ir até Recife, para nos depararmos com situação absurdamente semelhante. Falo do Cais do Porto, de sua dissociação com os porto-alegrenses, de um projeto excludente, que tem como base a exploração comercial do espaço público. O cais é um referencial para a população, é o início de nossa história e é um elemento de ligação com o Guaíba, seja ele rio, lago ou estuário. Hoje, ninguém consegue entrar sem autorização expressa do consórcio que gerencia o complexo de pórtico e armazéns. 
Mas, concordando com Moser, podemos fazer algo a respeito. Existem  outras soluções que dialogam com a identidade de nossa cidade, preservando o patrimônio histórico e cultural e democratizando o acesso. É preciso fortalecer o conceito de que a arquitetura é cultura, entendendo que aquilo que for construído hoje, contará nossa história mais adiante. 
Achei fantástica uma frase do artigo que diz "E os intelectuais precisam educar as pessoas para que entendam que um shopping monstruoso não é uma inevitabilidade do destino. É uma escolha política que precisamos rejeitar". Adapta-se perfeitamente à situação do Cais Mauá. Vocês sabiam que o armazém próximo à Usina do Gasômetro, denominado A7, vai ser demolido para dar um lugar a (mais) um shopping à beira do Guaíba, com estacionamento para um sem número de carros? É isso que queremos? 
Não foi uma escolha feita em conjunto com a população. E não podemos nos omitir de participar, de pensar a cidade para seus cidadãos. Assim como no Movimento Ocupa Estelita, aqui existe uma legião de pessoas que busca caminhos para tornar o Cais Mauá um lugar no qual Porto Alegre se reconheça (Ocupe Cais Mauá). São diversos movimento unidos pela causa e que trazem questionamentos ao processo de negócios proposto, bem como projetos arquitetônicos alternativos, nos quais a integração do cais com a cidade e sua toda sua população é o eixo principal.
Por isso, a informação é fundamental neste momento. Informe-se sobre o que está acontecendo, o que está sendo proposto e participe da forma que puder. Existe uma página no Facebook que traz muito material a respeito do processo do cais, a programação proposta para dar visibilidade ao assunto, além de ser um canal de comunicação. 

Links sobre o assunto:
https://www.facebook.com/ocupacaismaua?fref=ts (página Ocupa Cais Mauá)
https://www.youtube.com/watch?v=dJY1XE2S9Pk (para entender o movimento Ocupa Estelita)
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2014/11/benjamin-moser-o-brasil-esta-se-canibalizando-4653001.html (entrevista com Benjamin Moser)






















sábado, 26 de julho de 2014

2º Seminário Patrimônio Cultural & Políticas Públicas

Inscrições: http://www.arccov.com.br/inscreva-se/

Parceria de Valter Barbosa & Stephen Messenger

A Ponte de Pedra, no bairro Cidade Baixa
(Foto: Stephen Messenger/Arcervo Museu
Joaquim José Felizardo/Fototeca Sioma Breitman)

Recebi via facebook um link muito interessante sobre um trabalho fotográfico que funde duas fotografias feitas em diferentes épocas de um mesmo lugar, tendo como protagonista a cidade de Porto Alegre. É um interessante resgate da memória da cidade, perspectiva tão abandonada por esses pagos. Compartilho a reportagem e a galeria de fotos, como divulgação deste resgate histórico.
Para ver a galeria de fotos, clique aqui.







Americano resgata história de Porto Alegre em montagens de fotos



Radicado em Porto Alegre há quatro anos, um jornalista americano está ajudando a resgatar a memória fotográfica da cidade e a propor um novo olhar sobre a capital dos gaúchos. Stephen Messenger, 29 anos, une o passado e o presente em montagens de fotos que retratam pontos de referência da cidade e alguns momentos históricos. 
Ambulância puxada por burros, em frente ao prédio da Prefeitura de Porto Alegre
(Foto: Stephen Messenger/Arcervo Museu Joaquim José Felizardo/Fototeca Sioma Breitman)


Ainda não batizado, o projeto surgiu há cerca de um ano está sendo publicado no perfil do autor no Facebook. O objetivo do trabalho, segundo o americano, surgiu da necessidade que ele sentiu em mostrar um lado da cidade que costuma passar despercebido pela maioria dos moradores e visitantes da capital gaúcha.

“Faço isso para mostrar um lado da cidade que as pessoas não notam. Você pode comparar as coisas de diferentes épocas. As pessoas estão diferentes, mas os lugares antigos ainda existem. Muitas pessoas vivem ou frequentam eles, mas não sabem o que são ou o que eles representam”, diz Stephen.

As ferramentas do jornalista são apenas um celular, uma foto antiga e um software de edição de imagens. Já o processo de montagem é feito em duas etapas. Primeiro ele busca uma imagem antiga da cidade na internet para depois tentar encontrar algum ponto de referência do passado que tenha resistido à ação do tempo e ao crescimento urbano. Feito isso, ele saca um smartphone do bolso e produz uma nova foto no mesmo ângulo da antiga.

O Mercado Público alagado pela enchente de 1941, os arcos da Avenida Borges de Medeiros, a Ponte de Pedra no Largo dos Açorianos e a Rua General Câmara (localizada no centro histórico da cidade e que era conhecida por Rua da Ladeira no início do século XIX) são alguns dos pontos revisitados por Messenger. Com as imagens em mãos, ele faz o “mashup” (mistura) entre o antigo e o novo registro.

A paixão por fotografia sempre acompanhou o americano. Natural de San Francisco, cidade que fica no estado da Califórnia, Messenger se mudou para o Brasil a trabalho. Ele conta que nunca tinha ouvido falar de Porto Alegre, mas depois de conhecer a cidade mais a fundo, se encantou e resolveu ficar.

“Eu não sabia nada da cidade. Rio de Janeiro e São Paulo recebem mais atenção fora do Brasil. E vi que Porto Alegre é uma cidade muito bonita. Percebi isso depois que resolvi morar nela. As pessoas são mais amáveis e a cultura é fascinante. Porto Alegre merece mais atenção por parte do mundo e espero que o meu trabalho fotográfico espalhe orgulho para os gaúchos”, diz o jornalista.

Resgate histórico na era digital
As imagens históricas que Messenger usa no seu trabalho tem como fonte as pesquisas feitas pelo administrador de redes Valter Barbosa. Os dois não se conhecem, mas juntos estão ajudando a resgatar a história fotográfica de Porto Alegre e a popularizá-la nas redes sociais.

Valter é administrador da página “Porto Alegre (Fotos Antigas)” no Facebook. Criado em novembro de 2011, o espaço é dedicado a mostrar imagens que resgatam a história da cidade. Em três anos de atualizações, a página já conta com cerca de 30 mil seguidores.

“Acho que esse trabalho é de máxima importância, pois todo mundo tem curiosidade em saber como era a cidade antigamente. Seja para percebemos a evolução da nossa capital ou as modificações que ela foi sofrendo com o tempo”, comenta Barbosa.

O material postado tanto por Messenger como por Barbosa não possui fins lucrativos. No caso da página de Barbosa, as imagens são compiladas a partir de blogs, sites de fotos como o Flickr oficial da prefeitura de Porto Alegre e o acervo histórico do Museu Joaquim José Felizardo, entre vários outras fontes.
Inauguração do Viaduto Otávio Rocha, no centro de Porto Alegre, em 1932 e atualmente
(Foto: Stephen Messenger/Arcervo Museu Joaquim José Felizardo/Fototeca Sioma Breitman)


Enquanto o trabalho de Messenger é mais artístico, Barbosa procura mostrar locais e fatos importantes que marcaram a história de 241 anos da cidade. Mesmo com métodos diferentes, ambos destacam a importância do olhar sobre o passado para a preservação do patrimônio cultural e histórico da cidade e a influência que ele tem na vida das pessoas.

“Eu penso que ver como esse lugares eram há muitos anos conecta as pessoas a uma história que é difícil de ver em decorrência da cara que a cidade possui hoje. Isso nos faz lembrar que Porto Alegre é mais velha do que qualquer construção que aconteceu nos últimos anos. Quando você vê cidades européias como Londres e Paris, por exemplo, se nota que as pessoas que vivem e crescem por lá estão inseridas em um ambiente que remete ao próprio lugar e a sua importância histórica”, conclui Messenger.

Fonte: http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2013/10/americano-resgata-historia-de-porto-alegre-em-montagens-de-fotos.html

domingo, 13 de julho de 2014

O braço de plástico da República

A proteção do patrimônio cultural demanda que se tenha um envolvimento com objeto a ser protegido, através do conhecimento histórico, técnico, dos aspectos afetivos envolvidos e de uma cultura voltada ao respeito e valorização do patrimônio. Por isso, transcrevo um texto sobre o assunto escrito pela vereadora Lourdes Sprenger.


O braço de plástico da República
Lourdes Sprenger (*)

A memória histórica urbana de Porto Alegre desaparece a olhos vistos ante a indiferença das autoridades públicas. Este é um alerta que venho fazendo com a colaboração de alguns meios de comunicação, pois a cada dia, a arte pública de Porto Alegre continua abandona à própria sorte. Isto demonstra o grau de barbárie que está a dizimar os traços da nossa cultura. No entanto, é importante destacar que já vem de alguns anos a onda irrefreável de vandalismo, agora associado ao furto de bronze e de cobre.

Tanto é que num mercado de sucata da periferia da Capital foi resgatado o busto de Friedrich Engels, serrado em três partes. O bronze que serviu para emoldurar a figura do filósofo alemão foi vendido a R$ 3,00 o quilo. E o dinheiro, segundo apuraram as autoridades, serviu para compra de crack. Exemplos, porém, são fartos. Só na área do Parque Farroupilha, de onde desapareceu Engels, a falta de câmeras de vigilância e a deficiência dos serviços da Guarda Municipal facilitaram o desaparecimento de outras obras como a cabeça de Chopin, o busto de Annes Dias e, mais recentemente, o do médico alemão Samuel Hahnemann, pai da homeopatia, fixado no parque há 71 anos.
Sem forças para agir diante do vandalismo, Porto Alegre se distancia das cidades em que o patrimônio histórico urbano é admirado e preservado. Aqui, a prefeitura vem gradativamente retirando obras culturais do ambiente urbano para escondê-las dos ladrões e vândalos num espaço escuro e secreto, conhecido como ‘galpão das estátuas’. Por isso, tenho feito gestões junto à Secretaria de Meio Ambiente e à Coordenação da Memória Cultural na tentativa de obter informações e estimular um novo olhar do poder público sobre nosso patrimônio urbano.
Foto: Ricardo André Frantz
Nas minhas andanças para conhecer a real situação da arte urbana da cidade recolhi fatos que bem ilustram o drama de nosso patrimônio. Por exemplo: A República – estátua que faz parte do monumento a Barão do Rio Branco, na Praça da Alfândega - permaneceu longo período sem um dos braços. O mesmo foi refeito, com material original. Durou apenas 15 dias e foi novamente arrancado. 
Foto: Ricardo André Frantz
Por fim, os restauradores decidiram por um braço de matéria plástica. A solução custou R$ 3,00 (mesmo valor pago aos ladrões pelo quilo do bronze de Engels) e a República continua milagrosamente intocada desde então.






(*) Lourdes é moradora da Zona Sul e vereadora de Porto Alegre. Texto originalmente publicado no blog da vereadora: http://lourdesvereadora.blogspot.com.br/2014/03/o-braco-de-plastico-da-republica.html#more.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Reunião dos movimentos pela preservação do patrimônio

Pois toda a celeuma em volta de dois assuntos em especial, apesar de nos mostrar como anda maltratado nosso patrimônio cultural e de que existem muitos outros interesses envolvidos no assunto, algo muito interessante está acontecendo. As pessoas, e por tabela os movimentos, perceberam que precisam se unir para que a proteção de nosso legado seja efetiva.
Blog Moinhos Vive

Temos acompanhado alguns episódios esporádicos, que têm algum alcance social e até mesmo resultados. Um exemplo disso foi a mobilização popular e o desenrolar judicial que aconteceu por conta das Casas da Rua Luciana de Abreu. Esse é um processo judicial longo, que teve início com a intervenção da sociedade e que, no momento, encontra-se suspenso, aguardando uma definição do executivo, em relação do valor das casas. Nesse caso, fortaleceu-se o movimento Moinhos Vive, protagonizando a mobilização de boa parcela dos cidadãos de Porto Alegre, trazendo para a discussão a causa do patrimônio.
Blog Proteja Petrópolis

Mais recentemente, a palavra que entrou no dia-a-dia do porto-alegrense foi inventário. O procedimento de levantar dados e catalogar imóveis de valor já havia sendo feito na cidade. O bairro Moinhos de Vento e o Centro, por exemplo, já foram inventariados, mas sem a repercussão que houve no bairro Petrópolis. O que aconteceu de diferente de lá? O número de bens inventariados? Interesses econômicos? Apenas conjecturas. De concreto, muita discussão sobre esse instrumento de proteção, previsto em nossa Constituição Federal. E um projeto de lei aprovado, mas que afronta nosso sistema jurídico, colocando ainda mais em risco nosso patrimônio cultural. De positivo, a criação do movimento Proteja Petrópolis, que congrega moradores interessados na preservação e na divulgação de informações corretas sobre o procedimento e suas consequências.
Blog da Rede Metodista Confessante

Quase simultaneamente, um novo episódio chamou a atenção para outro instrumento protetivo chamado tombamento. Foi a notícia do leilão de uma “área nobre de Porto Alegre”, de cerca de 25 mil m², onde está localizado o Colégio Metodista Americano, escola que conta com cerca de mil alunos de Educação Infantil ao Ensino Médio. A comunidade iniciou uma grande mobilização em defesa desse patrimônio, pedindo o tombamento das áreas onde estão localizados o Americano e o Instituto Porto Alegre – IPA. Com página no Facebook, o grupo se identifica através do nome Tombamento do IPA - o teu nome, a tua história, honraremos. 
Embora esses movimentos tenham as suas particularidades, todos têm em comum a preocupação com a preservação dos bens que dizem respeito à identidade da cidade. E, para que a preservação seja efetiva e reconhecendo esse ponto em comum, estão acontecendo reuniões com todos movimento interessados na discussão não só na salvaguarda o patrimônio, mas também em propor políticas públicas que criem incentivos aos proprietários de tais bens.
Isso é importantíssimo: a união dos movimentos! Pois só desta forma será possível gestionar junto aos nossos representantes, sejam do executivo ou do legislativo, a proteção e a promoção do patrimônio cultural brasileiro, como determina nossa constituição. Temos que abrir esse canal de comunicação, mas para isso precisamos ser muitos. O momento não pode ser melhor. Os movimentos estão tendo a percepção da convergência de forças, além de ser um ano eleitoral, um ano de escolhas.
No dia 26 de maio, no Leopoldina Juvenil, houve um encontro dos movimentos, chamados pelo Moinhos Vive. Compareceram representantes da Associação do Moradores do Centro, do Petrópolis Vive, do Tombamento do Ipa, de Teresópolis, do Chega de Demolir Porto Alegre, da Defender, entre outros.
A próxima reunião já está marcada. Será no dia 02 de junho, no salão Boa Vista do Leopoldina Juvenil, às 19h30. Participe e divulgue! Clique aqui para acessar a página do encontro.

Fontes:
http://metodistaconfessante.blogspot.com.br/2014/04/imovel-do-colegio-americano-porto.html
http://protejapetropolis.blogspot.com.br/
http://www.sul21.com.br/jornal/ameaca-de-leilao-mobiliza-comunidade-do-colegio-americano-para-tombamento-da-escola-em-porto-alegre/
http://moinhosvive.blogspot.com.br/
http://defender.org.br/

terça-feira, 20 de maio de 2014

Petrópolis e Patrimônio Cultural

Trago o texto da jornalista e ativista Tania Faillace sobre questões de patrimônio:

fonte: http://www.mprs.mp.br/imprensa/noticias/id17329.htm

Com respeito à polêmica de preservação do patrimônio cultural do bairro Petrópolis, envio, em anexo, o folheto que está sendo distribuído pelo movimento defensor do patrimônio cultural da cidade, naquele bairro.
A ganância especulativa chegou a um ponto, nesta capital, que não respeita sequer o bom senso, e, portanto, optou por criar um estado de espírito artificial de incêndio na floresta, como se estivessem todos a caminho de desapropriações em massa a preço vil, quando o caso é justamente o contrário: valorizar o patrimônio imobiliário dos cidadãos pelo acréscimo de seu valor cultural.
A idéia geral, como alguns empresários do setor deixaram escapar na saída da reunião no CMDUA que apresentou a listagem, é DEMOLIR TUDO. 
Se pudessem, também demoliriam a Catedral, a Igreja das Dores, o Palácio do Governo, o Museu Júlio de Castilhos e outras velharias, segundo a ótica de que uma cidade é apenas um somatório de títulos financeiros e créditos furados. 
Pois... se há uma proposta já enunciada da empreiteira norteamericana que se oculta com um nome brasileiro, de demolir o Colégio IPA para fazer ali um super-espigão justamente em cima da piscina, como revelaram os portavozes do movimento de ex-alunos para o tombamento daquela escola na reunião ontem de vários bairros pelo movimento Moinhos Vive... de que mais se pode duvidar?
Os açorianos não chegaram aqui e se instalaram lá pelo século XVII ou XVIII, para alguns especuladores fazerem terra arrasada de sua memória, de suas lutas e da história de Porto Alegre dos Casais, integrada à formação da província e posteriormente do estado do Rio Grande do Sul . 
Ainda por cima, especuladores sem vinculação com os valores da cultura sulina... foi assim que se criou a bolha imobiliária norteamericana em 2008, aquela que se espalhou pelo mundo.
Cidade é abrigo, convivência e memória, não é um par de dados a ser jogado e aceitar apostas. 
Tania Jamardo Faillace

sábado, 10 de maio de 2014

Projeto de Lei sobre alteração na lei municipal de inventário

Como reação à publicação da listagem de imóveis inventariados do bairro de Petrópolis, o vereador Idenir Cecchim propôs projeto de lei que altera o Art. 3º da lei Dispõe sobre o Inventário do Patrimônio Cultural de Bens Imóveis do Município (Lei 601/2008):
Art. 3º Será dada ciência de inclusão de imóveis no Inventário do Patrimônio Cultural de Bens Imóveis do Município ao Poder Legislativo no prazo de 180 (cento e oitenta) dias, a partir da homologação do Prefeito Municipal.
Foto: Farrapo

A alteração prevê a necessidade de autorização do Poder Legislativo para a listagem. Conforme explica o vereador, “As listas, antes de homologadas, passariam pelas comissões e por audiências públicas". Foram feitos dois pareceres, na Câmara de Vereadores, que analisam a juridicidade, legalidade e constitucionalidade do projeto de lei. Ambos foram favoráveis. Ocorre, entretanto, que tais pareceres apenas investigaram a competência do município para legislar sobre matérias locais e se apegam ao direito de propriedade. Mas existem outros entendimentos sobre o assunto.
O primeiro deles é que o direito de propriedade não é absoluto e está subordinado à sua função social, conforme rege nossa lei maior, a Constituição Federal. As casas inventariadas constituem patrimônio cultural da cidade e essa é uma de suas funções. Assim, é preciso harmonizar esses valores, sem o sacrifício total de um dos lados. Uma política pública de preservação destes bens seria importantíssima nesse sentido. Através dela, poderiam ser criadas linhas de crédito vantajosas aos proprietários e a instituição de núcleos profissionalizantes de profissionais capacitados para trabalharem com o patrimônio cultural, por exemplo. Por outro lado, preserva o direito da população ao pleno exercício dos direitos culturais, valor constitucional, além de proteger a memória e identidade das diferentes comunidades.
Outro ponto a ser considerado é que, mesmo aquelas propriedades que não têm valor histórico e/ou cultural, estão submetidas às regras do Estado. Basta lembrar que, para alguns tipos de reformas ou ampliações em nossos imóveis, precisamos autorização municipal. No caso das casas inventariadas, elas precisam de orientação técnica para que sejam mantidas as características que as fazem serem exemplares dignos de preservação. Nada impede que sejam reformadas, utilizadas para fins comerciais, alugadas ou vendidas. Diz a lei: 
Poderá ser autorizada, mediante estudo prévio junto ao órgão técnico competente, a demolição parcial, a reciclagem de uso ou o acréscimo de área construída, desde que se mantenham preservados os elementos históricos e culturais que determinaram sua inclusão no Inventário do Patrimônio Cultural de Bens Imóveis do Município (grifo nosso).
Em relação à competência do município para legislar sobre matérias de interesse local, ponto ao qual se apegam os pareceres, está correto. Mas esse não é o objeto em questão. Estamos falando de divisão de competências entre os três poderes (legislativo, executivo e judiciário). É competência do Poder Executivo o registro dos bens culturais. É ato administrativo, que deve obedecer às exigências legais pertinentes como publicidade, motivação e legalidade, entre outros. Logo, a inconstitucionalidade do projeto de lei está na ingerência do poder legislativo sobre o executivo.
Fora esse vício constitucional, ocorre discussão semelhante à havida há pouco tempo sobre outro projeto de lei que versava sobre a inclusão de obra de arte em espaço público da cidade condicionada à aprovação na Câmara de Vereadores. Estamos novamente às voltas com a questão de critérios. Para Cecchim, "os critérios atuais são muito subjetivos, o que tem gerado dúvidas na comunidade". Na verdade, existe uma equipe técnica e especializada em patrimônio (EPAHC) que é responsável pela realização do inventário. E, para que se proceda à listagem, são observados critérios bem específicos e aceitos mundialmente por tratados de preservação, conservação e restauro. Logo, essa justificativa é equivocada. Posição semelhante tem o presidente do IAB-RS, Tiago Holzmann da Silva: “Nós somos totalmente contrários que os critérios passem pela aprovação Câmara de Vereadores”. De acordo com ele, a medida proposta no projeto de lei submete o patrimônio histórico da cidade a interesses políticos e eleitorais.
Assim, gostaríamos de convidar todos os interessados na preservação do patrimônio cultural de Porto Alegre a comparecerem na quarta-feira, dia 14 de maio, a partir das 14h, na Câmara de Vereadores, onde ocorrerá a votação do projeto em questão. Cabe lembrar que a tramitação de tal proposição está ocorrendo em regime de urgência, o que é temerário, dada a importância do tema e profundidade de suas consequências. 

Fontes: http://defender.org.br/noticias/rio-grande-do-sul/porto-alegre-rs-projeto-preve-autorizacao-da-camara-para-inventariar/
                   http://protejapetropolis.blogspot.com.br/
                   http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1071573

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Inventário de Petrópolis & informação

       A polêmica do inventário de Petrópolis tem propiciado intensas discussões, muitas vezes, baseadas em informações incompletas ou, até mesmo, falsas. Um grupo de moradores favoráveis ao inventário acredita que apenas o conhecimento bem consistente do assunto poderá, enfim, proporcionar o entendimento do real alcance dos resultados do inventário. Para auxiliar a esclarecer a comunidade, escreveram um pequeno panfleto com subsídios sobre o assunto, que está sendo distribuídos pela vizinhança. Abaixo, reproduzimos o documento:


- Durante aproximadamente 6 meses, entre 2012 e 2013, arquitetos e urbanistas especialistas em conservação e restauração de Monumentos e Sítios Históricos contratos pela EPAHC realizaram um extenso trabalho de coleta e análise de dados sobre os imóveis mais significativos do bairro Petrópolis. Deste estudo, foram classificados inicialmente mais de 700 imóveis. Após seminários internos, a Equipe de Patrimônio Histórico Cultural - EPAHC reavaliou toda a lista, resultando no registro dos pouco mais de 300 imóveis, considerando os critérios de valor arquitetônico (morfológico), valor cultural (histórico) e valor paisagístico.
 
-Os imóveis listado, em quase sua totalidade são casas das décadas de 40, 50 e 60, representativas do início do loteamento e urbanização da região, são imóveis característicos das classes média e alta da época, cuja arquitetura privilegia os estilos colonial espanhol/californiano, art decó e até modernista.

- Além de casas, a listagem protege também o meio ambiente, pois vem ao encontro da preservação de árvores e da avifauna que habita os jardins, pátios e calçadas das edificações inventariadas.

- Ocorre que este patrimônio cultural e ambiental está em risco, porque alguns proprietários de casas inventariadas apoiados e/ou insuflados pelo setor da Construção Civil estão articulados para anularem ou revogarem o inventário de proteção dos bens.


Para ampliar o esclarecimento, o grupo criou um blog e está contactando outros movimentos de bairros para troca de informação e fortalecimento da cidadania. Maiores informações são encontradas no blog Proteja Petrópolis (clique aqui). Lá é possível encontrar informações sobre o inventário, fotos de alguns imóveis que estão sendo preservados e assinar o abaixo assinado pela preservação de nosso patrimônio.
Ajude a divulgar, acesse à informação, exerça sua cidadania.



terça-feira, 8 de abril de 2014

Inventário de Petrópolis: carta de um morador ao EPAHC

                 Nas últimas semanas, um assunto tem causado polêmica na cidade. A listagem de imóveis inventariados que, a partir disso, recebem proteção. O bairro de Petrópolis teve cerca de 300 imóveis nessas condições, o que reflete não só a preocupação do município com a preservação do patrimônio cultural da cidade, mas também com a qualidade de vida. Abaixo, transcrevo a carta de um morador de Petrópolis, que traz argumentos contra a indignação de alguns proprietários, que receberam informações de pessoas ligadas à construção civil e que, por óbvio, tem interesses opostos à preservação das edificações.

Aproveito e deixo o convite para que se engajem na luta pela preservação da memória de Porto Alegre, assinando e ajudando a divulgar o abaixo-assinado de apoio ao Inventário de Petrópolis. Para assinar, clique INVENTÁRIO DE PETRÓPOLIS.



Foto de Isadora Quintana: Casa da Estrela – Rua Camerino, 34 (Jornal Mais Petrópolis)

Ao EPAHC. 

Espero conseguir chegar à equipe através deste e-mail.

Sou morador do bairro Petrópolis, advogado e servidor público de município da região metropolitana. 

Resido em Petrópolis há mais de 30 (trinta) anos, sou proprietário de casa no bairro e minha família também é proprietária de outra casa na região. Temos, portanto, 2 (dois) imóveis (casas) no Petrópolis.

Assim, é com satisfação que parabenizo o trabalho de inventário de imóveis do bairro e registro o meu apoio à medida administrativa em comento, cujos reflexos vão muito além da simples preservação de imóveis, eis que vem em encontro à preservação da paisagem, da cultura, da arquitetura, do ar, da avifauna e do trânsito e espaço público no bairro, contribuindo sobremaneira para a qualidade de vida em Porto Alegre. 

Contudo, infelizmente, tenho observado irresignação de alguns proprietários de imóveis abarcados pelo inventário. 

A contrariedade em questão, pelo que observei de debates em fóruns da internet e, sobretudo, em recente encontro na Praça Mafalda Veríssimo, restringe-se a alguns proprietários (em um número que não chega a 20% do número de bens inventariados), muitos, em geral, idosos, que temem por desvalorização, argumento este instigado por integrantes da construção civil infiltrados no grupo, apoiados por políticos que encontraram na questão uma oportunidade para exposição junto a este grupo de moradores. 

Preocupa-me que uma movimentação deste tipo, possa alcançar outros proprietários e outros segmentos da sociedade, considerando-se a fragilidade de muitos que se deixam levar por argumentos referentes à alegada desvalorização dos bens e do entorno.  

Petrópolis tem suas peculiaridades que lhe caracterizam e merecem ser preservadas. Ainda há no bairro muito a ser preservado, características estas que mesmo a explosão imobiliária das últimas décadas não conseguiu descaracterizar, destarte, é fundamental a medida do inventário que mantém o que há de mais importante para Petrópolis continuar existindo com suas características próprias e tão valorizadas.

Na verdade, uma visão mais acurada, claramente demonstra que o inventário não implicará em desvalorização para os proprietários das casas objeto da listagem.

Isso porque, Petrópolis jamais deixará de ser requisitado e valorizado justamente por manter suas características originais, ruas arborizadas, casas ajardinadas, árvores frutíferas nos pátios, arquitetura de casas modernistas, art. déco e colonial espanholas/californianas em conjuntos de residências, que se encontram, sobretudo, no eixo Av. Protásio-Av.Ipiranga. 

Estas casas são referências do bairro, que somados à localização privilegiada e natureza mista e autônoma - residencial/comercial - caracterizam e valorizam a região; some-se a isso, a própria existência dos edifícios das últimas décadas, os prédios de alto padrão. Isso porque, não se pode negar que, ressalvadas exceções, algumas das novas edificações acabaram por valorizar o bairro, conferindo-lhe movimento e refinamento.

Entretanto, a construção desses prédios deve ser moderada, de modo a respeitar as características originais do bairro que o valorizam e, neste contexto, é que sobrevém com perfeição a figura do inventário dos imóveis. 

Ou seja, Petrópolis se valoriza com os inventários, pois permanece aberto às modernizações e alterações. Isso porque, não obstante o inventário de algumas casas, há muita área ainda para se edificar no próprio bairro, cabe lembrar que é dos maiores bairros da capital, mas garantindo sua sobrevivência com reserva de suas características que o fazem admirado e requisitado para moradia. 

As casas inventariadas como de estruturação e compatibilização, ademais, não implicam na tão alardeada desvalorização.

Não há dúvida, mas poucos ainda têm esta visão em Porto Alegre, de que tais imóveis oferecem muito mais recursos que os apartamentos de meio metro quadrado vendidos por centenas de milhares de reais por oferecerem piscina ofurôs, academia e demais itens comunitários, além da alardeada falsa segurança. 

Esta ideia de que as casas valem unicamente pelo terreno e não pela qualidade de vida que proporcionam é situação há anos trabalhada pela construção civil no fito de levantar terrenos para mais e mais construções, pensamento este que, infelizmente, está arraigado em muitos proprietários de casas, sobretudo os menos atentos à astúcia dos especuladores do mercado imobiliário.  

De mais a mais, a partir do inventário, fica a segurança de que não haverá, frente às casas inventariadas, desvalorização proveniente de lote lindeiro, tal qual ocorrido com muitas residências e até edifícios, maculados por construções vizinhas que lhe tiraram a claridade, privacidade e conforto.

Cabe lembrar, que muitos proprietários de casas já se depararam com seus bens cercados por edificações construídas nas divisas ou em altura desproporcional onde antes havia pátio com farta vegetação, tolhendo-se a iluminação, estética e privacidade, ocasionando – este fato sim – expressiva desvalorização imobiliária do bem. 

Perdurando o inventário, o mercado continuará buscando o bairro Petrópolis, justamente pela preservação de suas características que o fazem visado, para os quais, sem dúvida, as casas inventariadas em muito contribuem.


Com isso, se valorizarão todos os imóveis existentes no bairro, em decorrência de um princípio mercadológico básico, qual seja: a diminuição da oferta frente ao contínuo aumento da demanda por moradias no bairro. Assim, as casas retornarão a ser valorizadas como bens aptos à atualização e restauração para fins de moradia e ainda, se estará evitando a saturação de imóveis e trânsito nesta região. 


De outra banda, não prospera qualquer argumento de que Petrópolis ficará abandonado ou estagnado, pois há muito já detém autonomia, comércio e elevado fluxo de pessoas e veículos decorrentes do grande número de edificações multifamiliares que vêm sendo construídas na região e do aumento de áreas reservadas à atividade profissional e comercial. 

Por sua vez, com a limitação de novas construções nas áreas inventariadas, as casas por sua condição de imóveis de estruturação ou compatibilização, estarão resguardadas de depreciações oriundas de construções em lotes contíguos e se ressaltarão como opção para investimento de moradia familiar e não apenas como um conjunto de lotes aptos à demolição e construção de edifício.

Ainda, os imóveis já existentes, casas e apartamentos, não listados, por estarem inseridos neste contexto de área preservada terão seus valores maximizados.

Em suma todos ganham e ganha a qualidade de vida da capital. 

Att.,

Álvaro Jôffre Souza Arrosi.


quarta-feira, 26 de março de 2014

O Projeto Vizinhança e o Centro Cultural Zona Sul

No dia do aniversário de Porto Alegre, um presente de seus cidadãos: Um centro cultural que está se concretizando pelo esforço da comunidade e um projeto que tem como objetivo o crescimento da cidadania e do bom relacionamento entre as pessoas através da arte e da cultura. O texto reproduzido abaixo é de autoria de Muriell C. Krolikowski e é uma ótima fonte de informação sobre o Projeto Vizinhança e sua 6ª edição, que acontece no próximo final de semana, 29 e 30, na Rua Landell de Moura, 430, Tristeza, na sede do Centro Cultural Zona Sul.

Projeto Vizinhança foi criado no segundo semestre de 2012, a partir de alguns encontros expondo ideias conjuntas do cotidiano de pessoas que se interessam por sua cidade e pelas relações de vizinhança que nela se constroem. A iniciativa desse plano foi traçado por Márcia Braga e Aline Bueno que buscavam ativar espaços disponíveis da cidade transformando-os, através da participação coletiva, em palcos de novas experiências, estimulando a convivência entre vizinhos, a troca e a aprendizagem em um ambiente lúdico, criativo e informal. Além disso, o projeto aumenta a visibilidade de artistas, fotógrafos, músicos, dançarinos e outros amadores/iniciantes por meio de atividades culturais como exposições, shows, teatros, entre outros eventos.
As cinco primeiras edições do projeto aconteceram entre agosto de 2012 e novembro de 2013 e foram experiências inéditas que mobilizaram conjuntamente mais de mil pessoas em uma série de atividades artístico-culturais. A primeira edição, em agosto de 2012, foi recepcionada em uma casa que estava para ser alugada, no bairro Boa Vista, e se transformou em uma galeria de arte através de uma parceria com a Galeria Virtual VendoArte. A segunda, em outubro de 2012, um jardim abandonado no bairro Petrópolis recebeu atividades variadas, como oficinas, pocket show, e refeições coletivas. Na terceira edição do projeto, em março de 2013, um grande terreno desocupado no bairro Santa Tereza ganhou vida com a intervenção de diversos artistas. A casa de Ivone Pacheco, diva do jazz porto alegrense, foi palco de muita música, arte nos muros, dança, teatro, poesia e contação de história, em junho de 2013, na quarta edição. Na mais recente, em novembro de 2013, três casas desocupadas no bairro Higienópolis foram transformadas para receber amigos e vizinhos durante um final de semana com uma programação intensa de atividades.
Foto: Muriell Krolikowski

Durante os dias 29 e 30 de março, a sexta edição Projeto Vizinhança chega ao Centro Cultural da Zona Sul de Porto Alegre trazendo exposições de fotografias e obras de alguns escultores, como as do Presidente da Associação dos Escultores do Estado do Rio Grande do Sul (AEERGS), Vinícius Vieira. Para entender um pouco mais sobre o projeto, assista o vídeo:




Também está disponível no link abaixo a entrevista que foi ao ar no programa Tudo Mais, da TVCom em 24 de março:


quinta-feira, 13 de março de 2014

Apesar de Você

Ok. Esse é o título de uma música que pode ser considerada uma espécie de hino contra os bicudos tempos de ditadura, com início há exatos 50 anos e que teve como atestado de óbito a Constituição Federal de 1988. Não pretendo aqui fazer nenhuma apologia pró ou contra, nem fazer um tratado sobre as causas e efeitos decorrentes do período.
Mas foi a primeira expressão que me veio quando pensei sobre o assunto que pretendia escrever: o evento Arte e Artista na Orla. Ele ocorrerá agora, no domingo, dia 16 de março, na orla do Guaíba, no bairro de Ipanema. A ideia foi trazer a cultura para a comunidade, num caminho inverso do que ocorre em regra, convidando artistas a travarem com o público um diálogo sobre a sua obra. Essa é, também, uma forma de demonstrar que a cultura precisa ser descentralizada e achar seu espaço no bairro. Como ele ainda não existe, a orla será um palco luxuoso para a exibição.

Esta estratégia faz parte de um projeto que objetiva transformar a antiga casa do Comendador Castro em um centro cultural, onde serão ofertadas oficinas de arte, exposições, palestras e outras atividades.
Casarão do Comendador Castro

O evento do próximo sábado, em particular, é um projeto hercúleo, capitaneado por Márcia Morales e, dessa longa jornada para fazê-lo acontecer, vem a frase do título da coluna. Acompanhei os bastidores da empreitada e posso dizer que não foi nada fácil. A burocracia emperra muita boa vontade. É uma sucessão de documentos e solicitações a serem apresentadas. É um depender da vontade de terceiros para obter respostas que possibilitem passar para uma nova fase no processo. É um emaranhado de leis e decretos, que levam o desavisado empreendedor à beira do desespero.
Mas, apesar de tudo isso, dos mandos e desmandos, de muitos desvios por tantas secretarias e departamentos, a persistência da criadora do evento prevaleceu. E tal evento será lembrado como o pontapé inicial para estabelecer o Centro Cultural de Ipanema. Não só o bairro, como a cidade inteira merece esse presente e a oportunidade de viver a cultura, mercadoria às vezes tratada como luxo, outras, como lixo.

É uma oportunidade para repensarmos nossa atuação em todos os processos que dizem respeito a nós e à nossa cidade. A necessidade de união de esforços com metas comuns, de se deixar de lado vaidades, pensando sempre na construção de um objetivo, quer seja a preservação do meio ambiente, o conserto da calçada, a segurança do bairro ou a produção da cultura. O evento Arte e Artista na Orla vai ser um sucesso, apesar dos percalços. Espero vocês lá!


OBS: Estaremos conversando com o pessoal lá, às 15h!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

QUEM PLANEJA PORTO ALEGRE?

Ainda com a sensação de grande perda e impotência diante dos fatos que diariamente vêm traçando o destino torto de Porto Alegre, recebi por email esse texto do engenheiro Vinícius Galeazzi e que peço permissão para repassar, pois vale a transcrição na íntegra para conhecimento e tomada de consciência de todos os cidadãos interessados em uma cidade para todos. Peço licença pública, também, para postar aqui um desenho de Moacir Gutterres, o Moa, lembrando o quanto estão presentes em nossa memória os Armazéns do Cais do Porto.
http://www.aviaovermelho.com.br/index.php/2010/01/porto-alegre-no-traco-de-moa/

QUEM PLANEJA PORTO ALEGRE?


Ou: De como o Instituto dos Arquitetos do Brasil, IAB, perdeu seu lugar no Conselho do Plano Diretor – CMDUA – de Porto Alegre para, por exemplo, o Sindicato dos Corretores de Imóveis do RS

Vinicius Galeazzi – eng. civil

A Capital do Rio Grande do Sul, com cerca de um milhão e quatrocentos mil habitantes, que porta em sua história a participação de reconhecidos arquitetos urbanistas que estudaram e propuseram o seu desenvolvimento, não tem mais uma SMP – Secretaria Municipal de Planejamento. O setor de planejamento, com a função de pensar a cidade, naquela falecida secretaria, foi diminuindo de tamanho e importância que, no início da atual gestão, virou um minguado setor na novíssima SMURB – Secretaria Municipal de Urbanismo.

A função de pensar a cidade e determinar seu desenvolvimento, está deixando de ter o seu fórum centrado no Município, enquanto sede de governo e de decisões, mas deslocado para um posto ainda indefinido que não prioriza o que o planejamento da cidade deve visar: o direito dos cidadãos de habitar, de locomover-se, de trabalhar, de formar-se e de divertir-se da melhor, mais abrangente e mais harmônica maneira possível. Enfim, a cidade que todos quereríamos. Prioriza outra coisa.

Vem de roldão, um conceito de cidade “intrépida”, que vai pondo abaixo a “romântica” cidade para os cidadãos. Faz erguer rapidamente grandes e fascinantes empreendimentos imobiliários, shoppings, viadutos e avenidas, empurrando as moradias para mais longe. Longe do trabalho, da escola, do lazer, exigindo esticar as linhas de ônibus, energia, água, recolhimento de lixo, longe da cidade fascinante. Mais triste e mais caro para o Município.

Mas, dirão, o Conselho do Plano Diretor – CMDUA - cumpre um papel importante de decidir as intervenções na cidade, os traçados das ruas e avenidas e os grandes empreendimentos imobiliários. E cumpre uma função democrática no processo de planejamento de Porto Alegre, pois é um colegiado bem representativo: além do secretário da SMURB, representantes eleitos das nove regiões da cidade, representantes de nove entidades governamentais e representantes de nove entidades que atuam na cidade. Neste último grupo que o IAB integrava o CMDUA desde 1955.

Este grupo é dividido em três subgrupos. Na eleição de novembro de 2013, havia no subgrupo do IAB, 25 entidades candidatas e eleitoras que deveriam escolher cinco representantes. Entre elas, a Sociedade de Engenharia do RS – SERGS -, o Sindicato dos Arquitetos do RS – SAERGS –,  o CREA-RS, o CAU-RS e o Sindicato dos Engenheiros do RS – SENGE-RS – que eu representava.

Fizemos uma breve articulação por telefone e na chegada à sala da eleição, entendendo que garantiríamos, pelo menos, dois representantes (IAB e SAERGS), quando víamos chegar à sala, com passo firme, outros representantes tranquilos, com o voto já decidido. Alguém lhes entregava uma cédula pronta. O coordenador da eleição fez uma breve e bonita preleção, explicando o processo eleitoral, finalizando com um “viva a democracia”. Solicitou que cada um dos presentes justificasse a importância de sua entidade fazer parte do Conselho. Lembro que o representante do Sindicato dos Transportes Pesados e Armados, ao final de sua fala, gritou também “E viva a democracia”.

O resultado da votação foi implacável. Os 16 votos batidos para as cinco entidades da cédula pronta garantiram-lhes as cinco vagas do subgrupo: a Associação Gaúcha dos Advogados do Direito Imobiliário e Empresarial (Agadie), o Sindicato dos Corretores de Imóveis do Rio Grande do Sul, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RS) e o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil (STICC) e a Sociedade de Engenharia (SERGS). Esta última, a SERGS, teve 17 votos. Se entende, pois quando fui pedir para o representante do CREA apoio para o SENGE, este respondeu que estava lá para dar o voto tão somente para a SERGS.

A articulação com as 16 entidades funcionou. Ao passo que o IAB, SAERGS e SENGE receberam 6 a 7 votos.

Merece reflexão a composição do grupo da cédula. Merece, ainda mais, o resultado dessa votação. Será sinal dos tempos esse resultado? Que, com exceção do SERGS, associações de advogados imobiliários e corretores de imóveis garantam seu lugar no conselho que decide o planejamento e o urbanismo da cidade e o IAB, por exemplo, fique fora?

Duplamente, me parece. Dum lado, o Mercado, o mercado imobiliário e empresarial, assenta-se, articulado e organizado. De outro lado, as entidades que reúnem profissionais da arquitetura e da engenharia que, no passado, tiveram voz ativa e presente nas definições dos rumos da cidade, se encolhem, desarticuladas. Não ganham nada para isso, me justificou alguém. Noutros tempos também não ganhavam.

Se quisermos aprender alguma coisa com os fatos e reverter a situação, é preciso pensar na próxima eleição do CMDUA, a partir de hoje.

Paralelo a isso, se esvazia o setor de Planejamento do Município; onde estão os urbanistas que deveriam conhecer a fundo a história, a vocação, as prerrogativas da cidade para propor a cidade para seus cidadãos? Grandes projetos urbanísticos são encomendados de eminências de fora e os espaços públicos negociados. O mais evidente e simbólico sinal dos tempos é ver (e não vi isso nos lugares importantes de outras cidades no Brasil e fora daqui) nossos mais tradicionais e queridos espaços públicos, Teatro São Pedro, Largo Glênio Peres, Auditório Araújo Viana e daqui há pouco o nosso cais, crivados de Coca Cola.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Ano novo, problemas antigos

Adoro o início do ano. Muito mais que o Natal, o Ano Novo sempre trouxe para mim uma alegria diferente, por conta do elemento de renovação intrínseco. A loucura que se tornou o Natal, o consumismo e a gincana desenfreada para cumprir todos os compromissos foram desgastando a data. Só em pensar em Natal, começo a sofrer. Já a virada de ano sempre me trouxe, pelo menos, a esperança de mudança. Esse ano, infelizmente foi diferente. Por problemas familiares, passei envolvida com hospital.
Não sei se por isso, fiquei mais desanimada para o começo de 2014. A impressão é de que as coisas vão piorando dia após dia. Alguns atos administrativos, aparentemente inofensivos, têm o condão de fazer um grande estrago. Um exemplo está em curso na Vila Assunção, alvo muito visado da especulação imobiliária e da exploração comercial nefasta. Desde 2011, um restaurante árabe quer se instalar numa das principais avenidas do bairro, que tem inicio em plena Wenceslau Escobar. Já há um início de comércio localizado na confluência dessas ruas, mas que obedece ao regramento estabelecido pelo plano diretor para a região, importante área de interesse cultural.

Assim, existe uma restrição de atividades comerciais que podem se estabelecer no local e  regras para tanto. Uma destas regras é de que as construções para uso comercial devem medir, no máximo, 200m². Pois esse restaurante árabe, que iniciou a reforma numa residência que alugou na Av. Pereira Passos sem nem ao menos ter um projeto, solicitou à prefeitura uma licença para aumentar o espaço construído, chegando a mais de 500m²(!). Depois de denúncias dos vizinhos e uma ação judicial, obtiveram a licença para construir – pasmem – 476,43m². Mais do que o dobro previsto em LEI. E a motivação de tal exceção? Já existem muitos outros empreendimentos nos quais esse requisito foi flexibilizado. Referem-se a estabelecimentos com 202m², 212m² e 282m², metragens muito inferiores aos 532,78m² pretendidos ou mesmo aos 476,43m² que foram liberados.
Muitas perguntas ficam sem resposta. Porque isso acontece? Como pode um simples ato administrativo contrariar frontalmente uma lei muito clara e que tem como objetivo proteger uma área que é patrimônio cultural de nossa cidade? Que poder tão grande é esse? Que interesse particular pode ser tão maior do que o interesse coletivo? E a operação concutare? Foi encerrada?
Atualmente, sendo reformada no dobro da metragem permitida


O bairro vai sofrer um forte impacto pelo porte do empreendimento em termos de mobilidade, produção de resíduos, barulho entre outros. Mas acima de tudo, será o passaporte para a derrocada de mais um patrimônio porto-alegrense. Abrirá precedentes perigosos para que mais e mais construções fora das características do bairro sejam erguidas. Logo, recomeçarão as obras, que haviam sido suspensas por decisão judicial. Nos primeiros dias deste ano que se inicia.