segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Porto Alegre dos bondes!

Uma das últimas lembranças que tenho com meu avô, quando ele ainda estava bem de saúde, foi pegar um bonde, cujo destino não tenho o registro. Já havia sido noticiado o fim dos veículos esquisitos, que andavam agarrados aos trilhos e a fios elétricos, e aquelas seriam as suas últimas viagens. Depois, com o tempo, as marcas dos trilhos nas ruas foram desaparecendo, cobertas pelo asfalto, e a garagem da Carris, que ficava perto do Parque da Redenção, foi demolida, para dar lugar a avenida, celebrando os automóveis, novos astros de uma era. 
Foto: http://www.carris.com.br/default.php?p_secao=71
Minhas memórias confundem-se com as memórias de Porto Alegre. E assim como para mim, a lembrança dos bondes são os registros de uma época em que a cidade ansiava pela modernidade, vislumbrada pela vinda dos veículos a diesel e gasolina. Mas os bondes transformaram-se em marcos referenciais da vida da população até 1970, quando o último bonde parou.
Fonte https://www.facebook.com/pg/atelierdobonde/photos/?ref=page_internal

A medida em que os anos foram passando, aqueles veículos sem uso, foram sendo sucateados, desmanchados e esquecidos. Alguns tiveram uma vida mais longa, ocupando local de destaque em escolas da capital. Mas um, em especial, teve brilho ainda maior, agregando criatividade e memória: o bonde da Tristeza. Por anos, serviu como palco da arte e da cultura, do fazer artístico, da fruição, do encontro das pessoas com a sensibilidade na zona sul da cidade.
Um dia, teve que sair da sua já tradicional morada, correndo sério risco de se perder, como os demais. Angela Ponsi e sua mãe, Zilka, que já o tinham salvo uma vez, persistem em sua proteção, dando-lhe novo destino e buscando a sua merecida recuperação.



Angela é a autora do projeto de restauração do bonde, que deverá acontecer com recursos da Lei Rouanet, de incentivo à cultura. É um projeto muito relevante para a cidade, tendo em vista que este é um dos últimos remanescentes da frota e que se encontra em razoável estado de conservação. Ele representa nossa memória viva e é fonte de referência, para os que vieram e virão depois de nós.
Porto Alegre precisa se reconhecer através daquilo que lhe representa: somos a Usina do Gasômetro, somos o Cais Mauá e o Guaíba, somos o Parque da Redenção. Esta é a nossa identidade. E os bondes eram personagens importantes da história desta cidade, que não precisa e nem pode deixar de ter a sua personalidade, para alcançar o desenvolvimento tão almejado.
Assim, a notícia do projeto de restauração do Bonde da Tristeza é um grande alento e alegria não só para a zona sul, mas para nossa cidade, tão carente de auto-estima. E esse bonde é um destes referenciais que nos tocam a alma e nos ajudam a conhecer nossa trajetória. Vida longa ao bonde!!!!!!

Outras matérias: 
http://www.meubairropoa.com/zona-sul/tristeza/atelier-do-bonde-elabora-projeto-de-restauracao-de-locomotiva/?fbclid=IwAR0kbyZ3OkTH1jMhKcgK-Yx_6hn2jGeLc8PPy2xduSqfMoo_pIJ7ZyYokg0
https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=2256628137916012&id=349960648405663

2 comentários:

  1. Cara Jacqueline, teu texto tão bem escrito expressa muito bem o meu sentimento em relação a este trecho tão importante da história de Porto Alegre. Muito obrigada pelas tuas palavras e pelo apoio ao #projetobondehistórico!

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  2. Porto Alegre é que tem que agradecer a luta de tua mãe e a tua para conservar este tão expressivo representante da memória coletiva da cidade! Parabéns pela luta! #projetobondehistórico!

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