segunda-feira, 25 de maio de 2015

E as passagens de pedestres da Vila Assunção?

Já escrevi algumas vezes sobre as passagens de pedestres da Vila Assunção, pois desde 2009 a comunidade vem confrontando-se com a venda destas por parte da administração pública. Na ocasião, foram levadas, ao Ministério Público, inúmeras irregularidades ocorridas ao longo do processo de alienação destes bens municipais, que fazem parte de uma área de interesse cultural. Disso, decorreu um inquérito civil, que teve como desfecho um termo de ajustamento de conduta (TAC) entre a Prefeitura Municipal e o Ministério Público.
O TAC consistia na obrigação dos órgãos públicos fazerem um levantamento de todas estas passagens de servidão, incluídas as áreas internas das quadras, que originalmente seriam jardins internos, de acesso à população. Destas, só restou intacta a área onde hoje se localiza o Clube de Mães da Vila Assunção, devido a uma concessão de uso do local pela comunidade. As demais foram invadidas pelos terrenos contíguos, anexadas por conta dos proprietários ao seu domínio, tendo sido algumas vendidas ilegalmente, já que são bens públicos.
Conheci a pessoa que ficou encarregada do levantamento e sei que fez o melhor que pode, já que conhecia bem o bairro e tinha a exata noção da importância das passagens para a preservação da característica de cidade-jardim que consagra a Vila Assunção. Teve o cuidado de conversar com a comunidade e enfrentou a prepotência de quem, por fazer parte do judiciário, acha-se acima do bem e do mal, como inúmeros casos que, infelizmente, estamos acostumados a ver.
O prazo para a apresentação de tal estudo extinguia-se em dezembro de 2014. No último dia 14, a promotora de justiça que está à frente do caso convocou a comunidade, representada por componentes da associação do bairro (APROVA) e da Região de Planejamento 6 (RP6) do Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano Ambiental (CDMUA), e de órgãos municipais, representantes da Equipe de Patrimônio Histórico e Cultural (EPAHC) e da Procuradoria do Município.
Lastimavelmente, os representantes da Procuradoria não compareceram, pois havia um movimento grevista, que impossibilitou a presença. Com isso, o relatório sobre os próprios municipais da Vila Assunção não foi apresentado, apesar de o estudo ter sido concluído. Assim, pouco se avançou sobre a questão. Mas alguns encaminhamentos foram feitos.
A apresentação sobre o estado de cada uma das passagens de pedestre e das áreas internas às quadras será feita para a comunidade, em uma audiência pública, que acontecerá no salão paroquial da Igreja da Assunção. O prazo para que ocorra a audiência é de 45 dias, a contar da reunião em 14 de maio.
Lembro-me que na audiência pública, realizada neste mesmo local, em junho de 2010, foi praticamente unânime o entendimento pela manutenção destes bens para uso da comunidade. Foram consideradas importantes na capilaridade do bairro, facilitando o deslocamento das pessoas, além de serem elementos de embelezamento e distintivos de um projeto que elevou a Vila Assunção à área de interesse cultural e, portanto, devendo ter um regramento urbano que mantivesse suas características.
Temo que a administração pública venha flexibilizando de tal forma as regras de proteção, que, muito em breve, este exemplar de cidade-jardim vai deixar de existir. O poder econômico tem mostrado ao que veio: um restaurante em pleno coração do bairro, com quase 600 m², quando deveria ter 200 m²; um edifício de 5 andares sendo construído na Av. Guaíba, que pôs abaixo sem piedade uma figueira frondosa, sem falar nos condomínios com casas geminadas e com três andares, para não haver dúvida quanto ao tamanho do lucro dos empreendimentos.

Convido os amigos, admiradores e moradores da Vila Assunção para mais este embate: audiência pública em junho!
Intervenção em uma das passagens de pedestre (artistas JP e Pax)


Este texto foi publicado originalmente no Porta Meu Bairro: 
http://www.meubairropoa.com/portoalegrando/jacqueline-custodio/e-as-passagens-de-pedestres-da-vila-assuncao/

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Razões para querer um Cais Mauá para todos

O texto abaixo foi publicado originalmente no Portal Meu Bairro, no qual escrevo quinzenalmente sobre assuntos ligados à cidade e ao patrimônio cultural.

A relação de Porto Alegre com o Cais Mauá é umbilical, pois ele faz parte de sua gênese. Seus primeiros passos foram dados ao seu redor e, como um pai zeloso, viu sua filha crescer, saindo de suas vistas e aventurando-se em distâncias inimagináveis aos seus olhos de então.
O Cais seguiu na labuta, passando os navios em revista, orquestrando as trocas de mercadorias e ajudando a cidade a tornar-se o que é hoje. O tempo passou e o lugar perdeu sua vocação para o comércio, mas seguiu majestoso às margens do Guaíba. E sua majestade foi reconhecida através da vida cultural que dali brotava: sua beleza plástica, os amplos espaços para receber a bienal e as crianças encantadas com personagens e cenários trazidos pela Feira do Livro, embarcar no onírico Cisne Branco, manifestar-se livremente ou sentar apenas para contemplar o por do sol, munido de chimarrão e de amigos.
Há muitos anos, os governos apresentam projetos, buscando oficializar o uso daquele espaço, recuperando seus prédios, bens culturais que foram protegidos pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)  e pelo Município de Porto Alegre. As propostas não se concretizaram e o Cais segue agonizando.
Mas por que isso acontece? Não pretendo dar uma resposta definitiva, como se me pertencesse a verdade. Mas tenho alguns palpites, principalmente em decorrência da análise da atual proposta de revitalização de nosso cartão postal.
A respeito dela, há quem diga que exista descrédito e desinformação por parte da população. Modestamente, discordo. Se existe desinformação sobre o que acontece no lugar e sobre detalhes dos procedimentos, não foi por falta de pedidos de esclarecimento. Eu mesma pedi, oficialmente, no portal de transparência de nossa prefeitura, informações sobre vários assuntos, como licenciamento ambiental, sobre possíveis audiências públicas, sobre os galpões tombados etc. Sei de mais gente que pediu e jamais recebeu resposta. Além disso, o acesso ao cais está interditado à população, sendo proibido até mesmo fotografar o local.
Será que o fato de que a população jamais ter sido ouvida na elaboração do projeto, não contribui com o que tem sido chamado de metáfora dos caranguejos? Ou talvez a indignação de ver o patrimônio cultural ameaçado, e até mesmo destruído, como aconteceu com as gruas protegidas, mas impiedosamente vendidas como sucata? Ou mesmo a constatação de que precisamos de um shopping às margens de um local de contemplação e não de consumo?
Para não dizerem que apenas sonho, lembro que o comércio de rua persiste em poucos lugares da cidade, sendo o Mercado Público, vizinho ilustre do Cais, um exemplo histórico a ser preservado.

As possibilidades de nos reconciliarmos com o Cais Mauá são inúmeras e a vontade é premente. A chave para que se opere este prodígio é envolver a população neste processo, de maneira transparente, congregando desenvolvimento e memória, turismo e cultura, a partir de nossas características, consolidando nossa identidade. E jamais esquecendo que a cidade só terá sentido se for pensada para as pessoas.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Saudades!!

Gente, estou com muitas saudades de escrever aqui no blog, mas o tempo anda escasso. As lutas são tantas, que não estou conseguindo parar para escrever sobre qualquer assunto. Porto Alegre, como sempre, está perdendo, cada dia que passa, um pouco mais de sua história. 
Só para listar rapidamente, o Cais Mauá perdeu grande parte de suas gruas, que foram retiradas (sabe-se lá o porquê) para serem vendidas como sucata. Se vocês não se deram conta, mexeram (literalmente) com o perfil da cidade. E com a benção do poder público, que deveria proteger nosso patrimônio.
Ainda estamos às voltas com a lei inconstitucional que trata do processo de inventário no município. Ela está valendo, apesar da insanidade de submeter ao legislativo, quais os bens que serão ou não preservados. O Ministério Público está questionando a validade da lei judicialmente, mas e o inventário de Petrópolis? A quantas anda?
O um terceiro tópico que está na ordem do dia é o veto do prefeito à lei que tombava a antiga sede do Grêmio Gaúcho, que ainda resiste bravamente na Av. Carlos Barbosa. Foram anos na tentativa de tombar o local considerado berço do tradicionalismo, para que num mesmo ato o prefeito expusesse o desrepeito pela nossa história, bem como um posicionamento (no mínimo) equivocado da EPAHC (equipe de patrimônio histórico e cultural).
Assim, estamos convidando a todos para uma conversa sobre esse último assunto no próximo sábado. Lembrando que apenas a mobilização da sociedade civil é capaz de barrar este desmanche.


domingo, 30 de novembro de 2014

Cidade sem memória ou como podemos reverter esse processo

Depois de um período de ausência, aproveitando um vácuo inesperado na agenda e a leitura do excelente artigo do Caderno ZH PrOA "O Brasil é um país belo, mas está se canibalizando", resultado de uma entrevista com Benjamin Moser, eis-me aqui para trazer um assunto que tem sido pauta de muitas discussões que tenho acompanhado.
O artigo citado fala algo que tem sido o ponto comum de muitas mobilizações que vêm ocorrendo aqui em Porto Alegre: "as cidades devem pertencer ao cidadão". Com muita clareza, Moser expõe a tentativa desesperada de apagar a identidade das cidades brasileiras. Ele diz que a a ideia de progresso, empregada para justificar a remodelação urbana, na verdade é a vergonha que se tem do país, de desprezo pelo nacional. Segue expondo sua impressão de que o país está cada dia mais feio e que as pessoas estão muito desmotivadas com tudo o que está acontecendo nas cidades. Entretanto, pondera que não é verdade que nada se pode fazer, citando o movimento Ocupe Estelita, que não classifica como revolucionário, mas um movimento que coloca a questão da cidade para a população.

Não precisamos ir até Recife, para nos depararmos com situação absurdamente semelhante. Falo do Cais do Porto, de sua dissociação com os porto-alegrenses, de um projeto excludente, que tem como base a exploração comercial do espaço público. O cais é um referencial para a população, é o início de nossa história e é um elemento de ligação com o Guaíba, seja ele rio, lago ou estuário. Hoje, ninguém consegue entrar sem autorização expressa do consórcio que gerencia o complexo de pórtico e armazéns. 
Mas, concordando com Moser, podemos fazer algo a respeito. Existem  outras soluções que dialogam com a identidade de nossa cidade, preservando o patrimônio histórico e cultural e democratizando o acesso. É preciso fortalecer o conceito de que a arquitetura é cultura, entendendo que aquilo que for construído hoje, contará nossa história mais adiante. 
Achei fantástica uma frase do artigo que diz "E os intelectuais precisam educar as pessoas para que entendam que um shopping monstruoso não é uma inevitabilidade do destino. É uma escolha política que precisamos rejeitar". Adapta-se perfeitamente à situação do Cais Mauá. Vocês sabiam que o armazém próximo à Usina do Gasômetro, denominado A7, vai ser demolido para dar um lugar a (mais) um shopping à beira do Guaíba, com estacionamento para um sem número de carros? É isso que queremos? 
Não foi uma escolha feita em conjunto com a população. E não podemos nos omitir de participar, de pensar a cidade para seus cidadãos. Assim como no Movimento Ocupa Estelita, aqui existe uma legião de pessoas que busca caminhos para tornar o Cais Mauá um lugar no qual Porto Alegre se reconheça (Ocupe Cais Mauá). São diversos movimento unidos pela causa e que trazem questionamentos ao processo de negócios proposto, bem como projetos arquitetônicos alternativos, nos quais a integração do cais com a cidade e sua toda sua população é o eixo principal.
Por isso, a informação é fundamental neste momento. Informe-se sobre o que está acontecendo, o que está sendo proposto e participe da forma que puder. Existe uma página no Facebook que traz muito material a respeito do processo do cais, a programação proposta para dar visibilidade ao assunto, além de ser um canal de comunicação. 

Links sobre o assunto:
https://www.facebook.com/ocupacaismaua?fref=ts (página Ocupa Cais Mauá)
https://www.youtube.com/watch?v=dJY1XE2S9Pk (para entender o movimento Ocupa Estelita)
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2014/11/benjamin-moser-o-brasil-esta-se-canibalizando-4653001.html (entrevista com Benjamin Moser)






















sábado, 26 de julho de 2014

2º Seminário Patrimônio Cultural & Políticas Públicas

Inscrições: http://www.arccov.com.br/inscreva-se/

Parceria de Valter Barbosa & Stephen Messenger

A Ponte de Pedra, no bairro Cidade Baixa
(Foto: Stephen Messenger/Arcervo Museu
Joaquim José Felizardo/Fototeca Sioma Breitman)

Recebi via facebook um link muito interessante sobre um trabalho fotográfico que funde duas fotografias feitas em diferentes épocas de um mesmo lugar, tendo como protagonista a cidade de Porto Alegre. É um interessante resgate da memória da cidade, perspectiva tão abandonada por esses pagos. Compartilho a reportagem e a galeria de fotos, como divulgação deste resgate histórico.
Para ver a galeria de fotos, clique aqui.







Americano resgata história de Porto Alegre em montagens de fotos



Radicado em Porto Alegre há quatro anos, um jornalista americano está ajudando a resgatar a memória fotográfica da cidade e a propor um novo olhar sobre a capital dos gaúchos. Stephen Messenger, 29 anos, une o passado e o presente em montagens de fotos que retratam pontos de referência da cidade e alguns momentos históricos. 
Ambulância puxada por burros, em frente ao prédio da Prefeitura de Porto Alegre
(Foto: Stephen Messenger/Arcervo Museu Joaquim José Felizardo/Fototeca Sioma Breitman)


Ainda não batizado, o projeto surgiu há cerca de um ano está sendo publicado no perfil do autor no Facebook. O objetivo do trabalho, segundo o americano, surgiu da necessidade que ele sentiu em mostrar um lado da cidade que costuma passar despercebido pela maioria dos moradores e visitantes da capital gaúcha.

“Faço isso para mostrar um lado da cidade que as pessoas não notam. Você pode comparar as coisas de diferentes épocas. As pessoas estão diferentes, mas os lugares antigos ainda existem. Muitas pessoas vivem ou frequentam eles, mas não sabem o que são ou o que eles representam”, diz Stephen.

As ferramentas do jornalista são apenas um celular, uma foto antiga e um software de edição de imagens. Já o processo de montagem é feito em duas etapas. Primeiro ele busca uma imagem antiga da cidade na internet para depois tentar encontrar algum ponto de referência do passado que tenha resistido à ação do tempo e ao crescimento urbano. Feito isso, ele saca um smartphone do bolso e produz uma nova foto no mesmo ângulo da antiga.

O Mercado Público alagado pela enchente de 1941, os arcos da Avenida Borges de Medeiros, a Ponte de Pedra no Largo dos Açorianos e a Rua General Câmara (localizada no centro histórico da cidade e que era conhecida por Rua da Ladeira no início do século XIX) são alguns dos pontos revisitados por Messenger. Com as imagens em mãos, ele faz o “mashup” (mistura) entre o antigo e o novo registro.

A paixão por fotografia sempre acompanhou o americano. Natural de San Francisco, cidade que fica no estado da Califórnia, Messenger se mudou para o Brasil a trabalho. Ele conta que nunca tinha ouvido falar de Porto Alegre, mas depois de conhecer a cidade mais a fundo, se encantou e resolveu ficar.

“Eu não sabia nada da cidade. Rio de Janeiro e São Paulo recebem mais atenção fora do Brasil. E vi que Porto Alegre é uma cidade muito bonita. Percebi isso depois que resolvi morar nela. As pessoas são mais amáveis e a cultura é fascinante. Porto Alegre merece mais atenção por parte do mundo e espero que o meu trabalho fotográfico espalhe orgulho para os gaúchos”, diz o jornalista.

Resgate histórico na era digital
As imagens históricas que Messenger usa no seu trabalho tem como fonte as pesquisas feitas pelo administrador de redes Valter Barbosa. Os dois não se conhecem, mas juntos estão ajudando a resgatar a história fotográfica de Porto Alegre e a popularizá-la nas redes sociais.

Valter é administrador da página “Porto Alegre (Fotos Antigas)” no Facebook. Criado em novembro de 2011, o espaço é dedicado a mostrar imagens que resgatam a história da cidade. Em três anos de atualizações, a página já conta com cerca de 30 mil seguidores.

“Acho que esse trabalho é de máxima importância, pois todo mundo tem curiosidade em saber como era a cidade antigamente. Seja para percebemos a evolução da nossa capital ou as modificações que ela foi sofrendo com o tempo”, comenta Barbosa.

O material postado tanto por Messenger como por Barbosa não possui fins lucrativos. No caso da página de Barbosa, as imagens são compiladas a partir de blogs, sites de fotos como o Flickr oficial da prefeitura de Porto Alegre e o acervo histórico do Museu Joaquim José Felizardo, entre vários outras fontes.
Inauguração do Viaduto Otávio Rocha, no centro de Porto Alegre, em 1932 e atualmente
(Foto: Stephen Messenger/Arcervo Museu Joaquim José Felizardo/Fototeca Sioma Breitman)


Enquanto o trabalho de Messenger é mais artístico, Barbosa procura mostrar locais e fatos importantes que marcaram a história de 241 anos da cidade. Mesmo com métodos diferentes, ambos destacam a importância do olhar sobre o passado para a preservação do patrimônio cultural e histórico da cidade e a influência que ele tem na vida das pessoas.

“Eu penso que ver como esse lugares eram há muitos anos conecta as pessoas a uma história que é difícil de ver em decorrência da cara que a cidade possui hoje. Isso nos faz lembrar que Porto Alegre é mais velha do que qualquer construção que aconteceu nos últimos anos. Quando você vê cidades européias como Londres e Paris, por exemplo, se nota que as pessoas que vivem e crescem por lá estão inseridas em um ambiente que remete ao próprio lugar e a sua importância histórica”, conclui Messenger.

Fonte: http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2013/10/americano-resgata-historia-de-porto-alegre-em-montagens-de-fotos.html

domingo, 13 de julho de 2014

O braço de plástico da República

A proteção do patrimônio cultural demanda que se tenha um envolvimento com objeto a ser protegido, através do conhecimento histórico, técnico, dos aspectos afetivos envolvidos e de uma cultura voltada ao respeito e valorização do patrimônio. Por isso, transcrevo um texto sobre o assunto escrito pela vereadora Lourdes Sprenger.


O braço de plástico da República
Lourdes Sprenger (*)

A memória histórica urbana de Porto Alegre desaparece a olhos vistos ante a indiferença das autoridades públicas. Este é um alerta que venho fazendo com a colaboração de alguns meios de comunicação, pois a cada dia, a arte pública de Porto Alegre continua abandona à própria sorte. Isto demonstra o grau de barbárie que está a dizimar os traços da nossa cultura. No entanto, é importante destacar que já vem de alguns anos a onda irrefreável de vandalismo, agora associado ao furto de bronze e de cobre.

Tanto é que num mercado de sucata da periferia da Capital foi resgatado o busto de Friedrich Engels, serrado em três partes. O bronze que serviu para emoldurar a figura do filósofo alemão foi vendido a R$ 3,00 o quilo. E o dinheiro, segundo apuraram as autoridades, serviu para compra de crack. Exemplos, porém, são fartos. Só na área do Parque Farroupilha, de onde desapareceu Engels, a falta de câmeras de vigilância e a deficiência dos serviços da Guarda Municipal facilitaram o desaparecimento de outras obras como a cabeça de Chopin, o busto de Annes Dias e, mais recentemente, o do médico alemão Samuel Hahnemann, pai da homeopatia, fixado no parque há 71 anos.
Sem forças para agir diante do vandalismo, Porto Alegre se distancia das cidades em que o patrimônio histórico urbano é admirado e preservado. Aqui, a prefeitura vem gradativamente retirando obras culturais do ambiente urbano para escondê-las dos ladrões e vândalos num espaço escuro e secreto, conhecido como ‘galpão das estátuas’. Por isso, tenho feito gestões junto à Secretaria de Meio Ambiente e à Coordenação da Memória Cultural na tentativa de obter informações e estimular um novo olhar do poder público sobre nosso patrimônio urbano.
Foto: Ricardo André Frantz
Nas minhas andanças para conhecer a real situação da arte urbana da cidade recolhi fatos que bem ilustram o drama de nosso patrimônio. Por exemplo: A República – estátua que faz parte do monumento a Barão do Rio Branco, na Praça da Alfândega - permaneceu longo período sem um dos braços. O mesmo foi refeito, com material original. Durou apenas 15 dias e foi novamente arrancado. 
Foto: Ricardo André Frantz
Por fim, os restauradores decidiram por um braço de matéria plástica. A solução custou R$ 3,00 (mesmo valor pago aos ladrões pelo quilo do bronze de Engels) e a República continua milagrosamente intocada desde então.






(*) Lourdes é moradora da Zona Sul e vereadora de Porto Alegre. Texto originalmente publicado no blog da vereadora: http://lourdesvereadora.blogspot.com.br/2014/03/o-braco-de-plastico-da-republica.html#more.